História da Umbanda: origem, resistência e diversidade 🌿

Vela branca, flores, guias e atabaque em composição sobre a história da Umbanda

A Umbanda se consolidou como religião brasileira nas primeiras décadas do século XX. Sua formação reuniu experiências religiosas de origens africanas e indígenas, devoções católicas, práticas populares de cura e influências do espiritismo. O encontro entre essas referências ocorreu de modos diferentes em cada região e em cada comunidade.

O relato ligado a Zélio Fernandino de Moraes e ao Caboclo das Sete Encruzilhadas ocupa um lugar central na memória de muitas casas. A pesquisa histórica amplia esse quadro ao observar documentos, organizações, conflitos e práticas anteriores ou paralelas a essa narrativa.

Este texto distingue os fatos registrados em fontes documentais dos acontecimentos transmitidos pela tradição religiosa. Os dois ajudam a compreender a história da Umbanda, mas cumprem papéis diferentes.

🕯️ Práticas religiosas anteriores à organização da Umbanda

Antes de a Umbanda ganhar nome e organização pública, comunidades negras e indígenas já mantinham saberes religiosos, formas de cura, culto aos ancestrais e relações próprias com o sagrado. Benzimentos, devoções católicas e experiências mediúnicas também circulavam no país.

Essas práticas não formavam um sistema religioso único. Elas existiam em contextos locais, com fundamentos, nomes e ritos próprios. Por isso, não é correto tratar todo culto mediúnico ou afro-brasileiro do século XIX como Umbanda. O que se pode afirmar é que parte desse repertório religioso participou do ambiente em que a religião se desenvolveu.

A repressão também fazia parte desse cenário. O artigo 157 do Código Penal de 1890 enquadrava práticas descritas como “espiritismo”, “magia”, sortilégios e determinadas alegações de cura. A lei não mencionava a Umbanda, que ainda não estava organizada publicamente com esse nome. Pesquisas sobre objetos sagrados apreendidos pela polícia mostram como esse aparato legal atingiu terreiros nas décadas seguintes.

As trajetórias regionais reforçam a necessidade de olhar além do Rio de Janeiro. Em estudo sobre a Grande Florianópolis, a pesquisadora Cristiana Tramonte encontrou relações entre curandeiros, benzedores, práticas afro-brasileiras e a formação dos primeiros grupos umbandistas locais.

✨ O relato de 1908 e seu lugar na memória umbandista

Segundo a narrativa difundida por muitas casas, em 15 de novembro de 1908, Zélio Fernandino de Moraes participou de uma sessão espírita em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Por meio dele, teria se manifestado o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Na tradição oral, a entidade anunciou um culto que receberia espíritos de indígenas e de pessoas negras escravizadas, rejeitados em determinados círculos espíritas daquele período. No dia seguinte, uma reunião na residência da família de Zélio teria marcado o início da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Para as comunidades que reconhecem esse relato, Zélio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas são referências fundadoras. Outras casas compreendem a origem da religião a partir de processos coletivos, linhagens diferentes ou experiências que antecedem esse episódio.

📚 Consolidação pública nas primeiras décadas do século XX

O desenvolvimento da Umbanda ocorreu junto ao crescimento das cidades, à circulação de médiuns e dirigentes e à criação de casas religiosas. O nome Umbanda passou a aparecer com maior frequência em instituições, publicações e debates públicos.

Nesse período, a organização institucional tinha uma função prática. Federações e associações buscavam representar os terreiros, dialogar com o poder público e enfrentar o estigma dirigido às religiões afro-brasileiras e às práticas mediúnicas. Ao mesmo tempo, cada grupo defendia sua leitura sobre doutrina, ritual e identidade.

🪘 O congresso de 1941 e as disputas por legitimidade

O Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda foi realizado no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de outubro de 1941. Os anais publicados em 1942 reuniram textos sobre história, filosofia, doutrina, ritual, mediunidade e organização religiosa.

O encontro foi importante para a visibilidade e a institucionalização da Umbanda, mas não estabeleceu um padrão seguido por todos os terreiros. O historiador Marcos Paulo Amorim dos Santos mostra que parte dos participantes procurou afastar a religião de outras práticas afro-brasileiras e aproximá-la de referências consideradas mais aceitáveis pela sociedade daquele período.

Esse esforço revela o peso do racismo na busca por reconhecimento. Elementos africanos foram, em alguns discursos, reduzidos ou reinterpretados. O congresso ajuda a entender tanto a organização pública da religião quanto as divergências que já existiam entre suas correntes.

🛡️ Repressão e conquista de direitos

Durante boa parte do século XX, terreiros enfrentaram vigilância policial, apreensão de objetos religiosos, acusações de curandeirismo e preconceito social. Dirigentes recorreram a estratégias distintas para proteger suas comunidades. Alguns se vincularam a federações ou destacaram a caridade e a identidade espírita. Outros mantiveram referências africanas e indígenas de forma mais explícita.

A Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso VI, tornou inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurou o livre exercício dos cultos religiosos e garantiu proteção aos locais de culto e às liturgias. A norma representa um marco jurídico, embora a intolerância religiosa continue presente no país.

Em 16 de maio de 2012, a Lei nº 12.644 instituiu o Dia Nacional da Umbanda, celebrado anualmente em 15 de novembro. A lei cria a data comemorativa. Ela não define uma versão oficial para a origem da religião.

Na 1banda, o significado dessa celebração está no conteúdo sobre o Dia Nacional da Umbanda. 💜

🌿 Desenvolvimento regional e diversidade entre as casas

A expansão da Umbanda ocorreu por meio de terreiros, famílias religiosas, dirigentes, médiuns, livros, jornais e federações. Sem uma autoridade central capaz de determinar os fundamentos de todas as comunidades, surgiram diferentes escolas e formas de culto.

Há casas com influência kardecista ou cristã mais acentuada. Outras preservam de modo mais evidente referências africanas, indígenas ou esotéricas. Também variam os nomes das linhas, os cantos, os instrumentos, as roupas, a organização das giras e as interpretações sobre os Orixás.

Essas diferenças não impedem a existência de referências compartilhadas. Caridade, mediunidade, relação com os Orixás e trabalho espiritual com entidades aparecem com frequência, mas a forma de compreender e praticar cada fundamento depende da tradição da casa.

Por esse motivo, um conteúdo histórico responsável informa qual fonte sustenta cada afirmação e evita transformar o costume de um terreiro em regra geral.

💜 História registrada, memória preservada

Documentos ajudam a localizar leis, instituições e disputas de cada período. A memória das casas preserva ensinamentos, vínculos e experiências que nem sempre chegaram aos arquivos.

Ao conhecer um terreiro, vale observar como aquela comunidade conta a própria trajetória, de quem recebeu seus fundamentos e quais referências orientam sua prática. É nesse vínculo entre memória, vivência e transmissão que a história continua. 🌿

Para seguir estudando, visite a biblioteca de livros sobre Umbanda ou consulte as orientações para encontrar terreiros com consciência e respeito. Axé! 💜🪘

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